A ousada promessa de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, de transformar seu país no “país do bitcoin” ressoou em 2021 como um chamado à modernidade e à inclusão financeira. Durante a conferência Bitcoin 2021, Bukele descreveu a criptomoeda como uma inspiração que poderia trazer prosperidade e liberdade econômica, lançando um projeto que tornaria El Salvador o primeiro país do mundo a adotar o bitcoin como moeda de curso legal ao lado do dólar americano.
Desde então, a realidade se distanciou das expectativas. A adoção do bitcoin, que prometia revolucionar a economia salvadorenha, foi rapidamente seguida por um desencanto generalizado. Em cinco anos, o entusiasmo inicial se desfez. O que se esperava ser um marco na economia agora é visto por muitos como uma ilusão. O bitcoin, que deveria facilitar remessas e impulsionar a inclusão financeira, acabou se revelando uma ideia de baixa aceitação e eficácia prática.
A proposta de Bukele era ambiciosa: o governo gastou cerca de US$ 150 milhões para promover a criptomoeda, oferecendo incentivos financeiros aos cidadãos para se adaptarem ao novo sistema. Entretanto, pesquisas apontaram um alto nível de ceticismo entre a população. Em 2022, 71% dos entrevistados acreditavam que a adoção do bitcoin não trouxe benefícios à economia familiar, e a utilização efetiva da criptomoeda se mostrou escassa, com apenas 5% dos pagamentos de impostos realizados em bitcoin.
O impacto sobre as remessas, que representam uma parcela significativa do PIB do país, foi igualmente decepcionante. Apesar de um crescimento nas transações via criptomoeda, o volume ainda era irrisório comparado ao total de remessas enviadas por meios tradicionais. Especialistas afirmam que a proposta de Bukele partiu de um diagnóstico equivocado sobre o que realmente encarece as remessas.
Além disso, as ambições de Bukele em construir a Bitcoin City e emitir “títulos vulcão” caíram no esquecimento. Em um contexto de crescente pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI), o governo foi obrigado a rever sua postura em relação ao bitcoin, limitando seu uso e transferindo o controle da carteira digital estatal para uma empresa privada. Essa mudança reflete uma adaptação às exigências econômicas do momento, demonstrando que a realidade muitas vezes é mais complexa que a visão utópica inicialmente apresentada.
A experiência de El Salvador levanta questões cruciais sobre a viabilidade da adoção de criptomoedas em larga escala. Apesar de ter colocado o país no mapa do debate global sobre bitcoin, a realidade é que a população não se sentiu compelida a adotar a nova moeda. Como ressalta um especialista, mesmo com um governo forte, não se pode forçar uma população a usar uma moeda. A experiência salvadorenha serve, portanto, como um alerta sobre a necessidade de condições favoráveis e educação financeira para que inovações desse tipo possam realmente prosperar.



